sexta-feira, 6 de junho de 2008

A página branca perdeu as asas

Foto: João Luz
A página branca perdeu as asas. Não traz no bico paz, muito menos um céu claro.
Um Homem feito estátua, feito de pedra nas palavras que não disse, espera ansioso que o pássaro inquieto do tempo lhe aponte o caminho, lhe segrede razões de voo capazes de o fazer quebrar as razões de mármore do seu imobilismo.
Pergunta-se se foi praga estranha que lhe rogaram, assim capaz de lhe cortar em silêncio os pulsos e a língua, vinda de dentro do peito a faca, vinda de dentro do tempo a mágoa, mas não encontra respostas.
Jaz, como jazem tranquilos, todos os que perderam os passos nos passos tranquilos dos pássaros que nunca voaram.

No fundo de um poço vivia uma lenda.
Havia uma mulher que por ciúme não dormia. Vigiava até os olhos lhe doerem os passos do seu amado.
Um dia, ensonada, seguiu o seu homem por uma mata vizinha à casa, até este parar junto de um poço agrícola.
Escondeu-se por detrás de um grande carvalho, esfregado os olhos de um cansaço quase insuportável, para que pudesse finalmente apanhar em flagrante o traidor.
Reparou que este se sentara na beira do poço, porém, apesar de falar com alguém, a enciumada mulher não conseguia vislumbrar a pérfida amante. Pensou que tal cegueira se deveria ao facto de quase não conseguir manter-se de pé, tantas eram as noites sem dormir, tamanha era a desconfiança.
Acercou-se um pouco mais, agora protegida por um penedo que se encontrava a escassos metros do local onde o homem se sentara.
Dali conseguia ouvir mais claramente aquilo que dizia, olhando para dentro daquele olho de água plantado no meio do terreno.
- Sabes, tenho a sensação de que a minha mulher desconfia de alguma coisa…Não dorme durante a noite, como que vigiando os meus sonhos. Sinto-a em todo o lado. Agora mesmo, tenho a sensação de que me espia…
- Não consigo viver assim, estou a um passo de a deixar…
A mulher quando ouviu estas palavras, saiu furiosa e descontrolada detrás do penedo correndo para o flagrante. Porém, quando de braços abertos tentava apanhar os seus fantasmas, tropeçou numa pedra que se encontra perto e tombou bem dentro do poço fundo, ouvindo-se o barulho da queda num som estranho que chegou em eco até à superfície.
O homem ficou estático, sem reacção. Depois chamou pelo seu nome, mas o som bateu nas paredes ovaladas e regressou até à boca, largo.
Ficou quieto, estranhamente quieto, e pela primeira vez na sua vida, mudo.

O escritor já não escreve. Uma vez mais as palavras levantaram voo deixando a sua página vazia.
Sente os pés a ficarem dormentes como pedra, um veio de morte a trepar rápido por si acima. Pernas e braços incapazes de esboçarem qualquer reacção. Depois, os músculos do pescoço a retesarem-se, os olhos a perderem o brilho, baços.
Um pássaro poisa no seu ombro e defeca nele.
As estátuas são definitivamente o sítio preferido dos pássaros fugidios da escrita e o tempo um poço sem fundo.
Já alguém perdeu nele uma mulher?

2 comentários:

SAM disse...

Excelente texto, onde se encerra relatos de observações interessantes...

Abraço

Bill Stein Husenbar disse...

Que descrição

Parabéns.

http://desabafos-solitarios.blogspot.com