domingo, 9 de setembro de 2007

Conto: Beatriz e o espelho mágico



à minha filha Beatriz



Beatriz Olhitos de Azeitona.
Tinha outro nome a pequena, mas o pai, desde que Beatriz nascera, que gostava de fazer piada com a sua silhueta morena, de cabelos nocturnos, num rosto onde brotavam em luz, dois olhos redonditos, como se de pequenas azeitonas se tratassem.
Quem não gostava mesmo nada da graçola era a “olhitos”. Agora, que tinha completado 13 anos, feitos no início desse mês de Dezembro, achava que tais nomes não eram nada elegantes para uma rapariga como ela, senhora dos seus domínios, dos armários abarrotados de vestidos, dos acessórios e perfumes, dos seus livros… mundo de fantasia onde entrava horas a fio, vestindo-se muitas vezes a rigor para desempenhar o papel das suas personagens favoritas.
Não raras vezes a mãe deu com ela teatral, a dirimir argumentos com o bengaleiro, vestido o infame traidor com o casaco de fato do pai, e o chapéu de palhinha que o avô trouxera das férias no Brasil.
Um dia, em que a casa se encheu de uma azafama que cheirava a mexidos e rabanadas envolvidos em canela; de avós “discutindo receitas”, que uma fazia com água e a outra demolhava em leite…que uma punha mel e a outra limão…, a morena, já um pouco ansiosa por provar as iguarias, gritou: - Quando é que se comem os doces e chega o Tio Bernardino?
Tio Bernardino era o mais excêntrico e fantástico dos tios. Passou a maior parte da sua vida em África, mas estranhamente não tinha em sua casa nenhuma cabeça de Leão empalhada. Nem sequer uma pele de jibóia, coisa comum em muitos, que as trouxeram como troféus de caçadas inimagináveis, e que da boca do Tio, Beatriz nunca ouvira contar, ou haveria, algum dia que fosse, escutar.
A sua casa tinha objectos bem mais interessantes. Os livros estavam por todo o lado: arrumados, desarrumados, empilhados, abertos, fechados…depois, uma infindável variedade de objectos: estátuas, estatuetas, amuletos, máscaras esculpidas em madeira, objectos de uso quotidiano das tribos africanas, pinças, lupas, canivetes, colecções de tudo o que se pudesse imaginar.
A de borboletas era fantástica. Não estavam as extraordinárias e coloridas criaturas espetadas em alfinetes sob superfície mole, não! Para cada uma, o dedicado senhor criara um ambiente minúsculo, em caixas de vidro, parecendo que a vida efémera daqueles seres, havia sido eternizada, pois podiam ser vistas nas mais variadas posições: poisadas num ramo, flor ou pequena pedra, alimentando-se ou apenas mostrando toda a sua beleza.
Beatriz adorava o tio-avô.
Tinha sido ele quem lhe oferecera a maior parte dos livros que tinha. Mil e uma histórias mirabolantes, algumas escritas pelo próprio aventureiro ao longo da sua vida; feita de viagens, do conhecimento da vida de tribos, povos, pessoas. Reis em carne e osso.
O escritor, tinha durante quarenta anos, escrito e publicado dezenas de contos, histórias, relatos de viagem, monografias, um romance até.
Era o seu ídolo.Ansiava pela hora em que as dobradiças do portão anunciariam a sua chegada; bonacheirão, embrulho debaixo do braço, pronto a soltar uma sonora gargalhada, daquelas que parecem ter pernas e chegam a todo o lado.
E chegou.
Chegou quando o bacalhau e as batatas para a ceia de Natal, caíram redondos no escoador, um segundo apenas antes da avó “Quinhas” mostrar os seus dentes com coroa de ouro, gritando:
-Prá mesaaaa!
Olhos de azeitona crescida correu para ele, abraçou-o pela cintura, cabeça encostada à sua proeminente barriga.
-Vieste Tio!
-Claro que sim, princesa. Disse o tio, encontrando sítio para colocar um volumoso, mas estreito embrulho, que trazia debaixo do braço.
Por este nome não se importava Beatriz de ser chamada. Era como se sentia, quando as mãos, apesar de tudo delicadas daquela pesada figura, lhe acariciavam os cabelos, quando a sua barba grisalha lhe picava o rosto, num beijo alegre e solto.
-Podia lá eu perder a Ceia de Natal, confeccionada pela minha bela irmã…
A cozinheira corou num sorriso brilhante, disfarçando o mesmo embaraço que tinha em menina, quando os rapazes lhe atiravam piropos no caminho de casa, bilha do leite apertada no peito, lenço na cabeça segurando os negros e longos cabelos.
A mesa de Natal era um regalo, e não era só porque estava posta a melhor loiça e os copos altos que a avó guardava durante o resto do ano como relíquia, no louceiro fechado da sala. Era porque as iguarias disputavam entre si o privilégio de serem as primeiras a ser provadas.
Misturavam-se no ar os cheiros, especiais e saudosos, que naquele dia do ano traziam todos pendurados por uma sapatada da avó, quando alguém furava a barreira de mulheres na cozinha e depenicava à socapa as delícias.
Os pais de Beatriz a um lado da mesa, mais os avós maternos. Do outro, os paternos e tia Lola, irmã solteira do pai. Nas pontas da mesa, olhos nos olhos, à distância da ternura, a jovem e o tio, de história sempre pronta, que encontrava para contar nas coisas mais triviais: na presença de um objecto, nas palavras de alguém, que logo fazia suas, dizendo:
- Não te esqueças do que vais dizer…
A refeição foi uma alegria. As gargalhadas afinavam o tom pelo diapasão de Bernardino, homem que envolvia a plateia a uma só voz, e cuja assombrosa memória trazia sempre no discurso, uma história esquecida de cada um dos presentes, uma curiosidade, que a todos agradava, mais os embaraçados, que no fim, de bochecha corada, riam na gargalhada de todos.
Não faltava nada ali. Era pelo menos isso que pensava a jovem, cativada no cheiro adocicado do cachimbo africano, no aroma a café que se espalhava através dele no ar; no ar satisfeito do homem de quem tanto gostava; responsável pelo prazer que tinha na leitura, pela sua constante fantasia, pela sua alma cheia de aventuras e personagens principais.
Era verdadeiramente, o seu herói.
Um pouco antes da meia-noite, quando a lareira precisou de mais umas canhotas, o atiçado escritor, aproveitando a deixa, sentou-se na velha cadeira de baloiço da avó, fazendo festas ao lume que começava a crepitar na madeira seca e disse, para os que já envolvidos nos seus gestos, se sentavam apressados à volta do fogo:
- Vou contar-vos hoje, noite de Natal, a história triste da princesa “Nimé”, tal como aconteceu num tempo distante e a sua memória passou de pai para filho até aos dias de hoje.
E começou a contar, como se lesse o texto, no tele-ponto dos olhos-azeitona de Beatriz, cujo brilho concorria com aquele que vinha da fogueira, extasiada por cada palavra rouca saída da voz do tio.
- Há muito, muito tempo, no interior da selva africana, uns caçadores de uma tribo importante, fizeram um achado que mudaria para sempre a história do seu povo.
Encontraram no mato, inexplicavelmente, uma criança de raça branca, com poucos meses de idade, sem qualquer vestuário, deitada numa cama de folhas, não havendo por perto qualquer vestígio humano ou objecto que a identificasse.
Levaram-na para a aldeia e o Rei ordenou que fosse entregue aos cuidados de uma ama, que fosse educada como eram os filhos da tribo.
Baptizou-a com o nome de “Nimé”, que significava “criança perdida”.
Nimé, cresceu feliz no seio daquela sociedade. É certo que era de raça branca, mas isso quase não se notava, uma vez que a sua pele era morena, os seus cabelos negros e os olhos dum verde profundo retirado ao verde das Árvores.
Aprendeu a língua, as histórias antigas, aprendeu a contar histórias que arrancavam sorrisos aos mais velhos, porque tinha uma imaginação sem limites, porque se encantava com os segredos da floresta e parecia saber escutar e ler os seus sinais.
Aos treze anos era uma bela jovem, que o rei tinha adoptado como uma filha predilecta, vivendo lado a lado com os seus e esposa.
Havia, naqueles tempos uma tribo rival que ansiava por tomar e subjugar o seu povo, mas a sua coragem e liderança aliada à valentia dos guerreiros, sempre travou as investidas dos que viviam do outro lado do rio grande.
Os sucessivos falhanços levaram os invasores a recorrer a outras estratégias.
Procuraram na floresta o feiticeiro Salii, homem gigante e medonho, que vivia numa sombria gruta e cuja magia era respeitada e temida por todos, pedindo-lhe a solução para aniquilar o povo vizinho.
Salii lançou ossos e pedras pelo chão, queimou plantas de cheiro intenso, matou um animal com um golpe sangrado e guinchou ele próprio como um porco bravo. Atingiu êxtases alucinado, revolveu os olhos e disse com voz do outro mundo:
- Se quereis matar o rei, tirai-lhe Nimé.
Os emissários regressaram a casa com um espelho colocado num caixilho árabe, com ordem do feiticeiro para que o fizessem chegar à princesa adoptiva do Rei e que esperassem até ao momento em que esta completasse 18 anos. Aí, haveriam de conhecer a força da sua magia e do seu poder…
Assim fizeram, enviaram uma comitiva real, levando as boas intenções do povo do outro lado e a esperança de dias melhores, de coexistência pacífica, fazendo a oferta de vários presentes em prova de boa fé, entre os quais, o espelho que viria a causar a tragédia de todo uma sociedade tribal.
Nimé, não lhe resistiu. Tinha já passado longas tardes a apreciar a sua fugidia figura nas águas do rio, mas nunca se vira como até ali, na mais pura nitidez, naquele objecto mágico, que parecia ter vida dentro dele e revelava todos os seus encantos.
O Rei vivia feliz, cada dia mais encantado pela beleza daquela criança perdida que um dia os deuses lhe deram. Encantado pelos seus dons, pela sua serenidade, como se ela representasse a esperança de todo um povo, através das enormes qualidades que possuía.
Mas um dia a tragédia aconteceu, da mesma forma que apareceu do nada Nimé desapareceu sem deixar rastro. No seu quarto nenhum sinal, nenhuma prova de rapto, nada.
Apenas um estranho facto. O espelho brilhante que a jovem tanto amava ficou negro como carvão. Não reflectia nenhuma imagem, tinha-se tornado escuro como a noite.
Ninguém soube mais nada da princesa. O território foi atingido por calamidades naturais, que devastaram as culturas e mataram os animais. A fome tomou conta de todos, a fraqueza fez a vitória dos invasores.
No dia trágico em que as aldeias foram saqueadas e queimadas, na madrugada desse dia, o Rei acercou-se do rio. Levava debaixo do braço aquele espelho que lhe dilacerava o coração.
Olhou o rio que corria sempre diferente, as águas revoltas e lançou num dos últimos gestos decididos que fez naquele dia o espelho para dentro dele, chorando…
Ficaram só alguns para contar de geração em geração a tragédia que se abateu sobre aquela civilização florescente depois da bárbara investida.
Diz a lenda, que um dia Nimé ressurgirá das águas para curar as feridas de todos os que sofrem, com palavras de amor, de esperança. Que muitos a seguirão no caminho da paz e da fraternidade universal, porque a sua mensagem será de amor.

FIM.

As palmas ecoaram na sala, rápidas. Ninguém havia dito uma só palavra enquanto Bernardino contou a história. O fogo na lareira quase se apagou e ninguém deu por isso.Beatriz estava encantada com a história a um mesmo tempo tão bela e tão triste que o tio contara. Estava prestes a dar-lhe um abraço, quando este levantou um dos seus dedos finos e disse:
-Ah, já me esquecia…trouxe uma prenda para a minha bela sobrinha que há dias fez anos…Procurou com os olhos em redor o local onde havia deixado o embrulho que trouxera quando chegou a casa e encontrou-o, dando-o a Beatriz cujos olhos faiscavam, ansiosa por descobrir o conteúdo do estranho pacote.
Rasgou o papel de embrulho em dois tempos. Surpresa! Um espelho estava agora nas suas mãos, caixilho árabe dourado, vidro escuro como breu.
Não podia acreditar, o espelho de Nimé.
Correu a abraçar o tio, chorando de felicidade. Os presentes riram de tamanha brincadeira de Bernardino, dizendo-lhe que só ele para contar estas histórias, fazer estas surpresas, tão cheias de encanto.
O escritor sorriu. Colocou na cabeça o chapéu e despediu-se que se fazia tarde.

Beatriz cresceu.
Não há mais nenhum espelho no seu quarto, que não aquele que o tio-avô lhe ofereceu no natal de há 25 anos. Nele se vê como mulher, nele se olha por dentro da sua alma. É a única que o consegue fazer.
O dia de hoje é especial para si.
Olha-se mais uma vez no espelho, ajeita o colarinho da sua blusa branca, toca com os dedos a sua pele morena do rosto, afasta uma madeixa rebelde do ombro. Sorri e sai.
Em cima da mesa um jornal.
Na primeira página, a notícia do momento:
BEATRIZ SALVADOR RECEBE HOJE O PRÉMIO NOBEL DA LITERATURA
Primeira mulher portuguesa a receber o prémio Nobel, a segunda nas letras, depois do escritor José Saramago ter recebido igual distinção há precisamente trinta anos atrás.
O Comité Nobel achou por bem agraciar a portuguesa, autora de uma obra impar na literatura, reconhecendo-lhe a sua enorme generosidade pelo uso da palavra, na luta contra a exclusão, o racismo e todas as formas de segregação racial.
Na altura em que recebeu a Notícia, Beatriz Salvador, ou “Olhitos de Azeitona”, como os amigos carinhosamente lhe chamam, de 38 anos e que escreve desde os treze, encontrava-se a jardinar na casa que foi pertença em vida do seu tio-avô, o escritor Bernardino Salvador, e que este lhe legou com todo o seu espólio pessoal e literário, aquando da sua morte, no passado ano, com 98 anos de idade.
Questionada sobre o significado do prémio, a ilustre escritora respondeu:
- Um espelho d´água.



Nota: Este conto pertence ao meu próximo livro a saír brevemente.
Todos os direitos registados

2 comentários:

Arsénio disse...

Viva amigo.
como me sugeriste, passei pelo teu blog, mas sinceramente só dei uma vista de olhos às fotografias da apresentação do livro.
Prometo ler mais qualquer coisita numa próxima visita.
um grande abraço.
Arsénio Barros

Dany disse...

Olha olha o teacher José!!!lol

gostei mt do seu blog ta muito fixe...
voce e muito fixe e o livro também lol qualquer dia compro o livro e depois da me um autografo ok?
um grande beijinho
Daniela(Escola de Távora) lol